ETC

Jornal Electrónico do Agrupamento de Escolas de São Bernardo

Trabalho premiado no concurso Literário sobre o tema Ano da Floresta

 

Asas para voar

 

            Alice tinha o mundo no olhar. Verde, azul, sem aborrecimentos, um mundo verdadeiramente transparente, sem mentiras, sem nada a esconder.

            Alice era uma rapariga especial. Tinha o dom de fazer os outros felizes. Escrevia como ninguém, o que lhe dava um prazer enorme. As palavras fluíam-lhe para o papel, da mesma forma que os peixes no mar se deslocam na imensidão profunda: calmos, serenos, por vezes, agitados. Melhor do que o prazer da escrita, só mesmo encostar-se a uma árvore, no meio de todas as outras da floresta, a levar com o solzinho na cara…

            Os pais davam-lhe todo o apoio, por muitas asneiras que ela fizesse. O sim à pergunta “Desculpas?” era óbvio. As suas notas eram muito boas, senão as melhores da turma.

            Mas havia algo que preocupava Alice: a personalidade das pessoas. Todas tinham de ter uma personalidade bem definida, na sua opinião. Alice não era como aquelas raparigas que se uma amiga diz “sim” e outra diz “não”, a “totó” diz “nim”. Alice acha que esta resposta a “enterra”. Considera-a menina sem personalidade, a verdadeira “cabecinha oca”. Muitas fazem isso para não “ferir” a sensibilidade das pessoas. Mas ter opinião não é “ferir” a sensibilidade de ninguém, basta expor o seu ponto de vista de forma correcta…

            Como sempre, ia cinco dias por semana para a escola e o pai, antes de ir para o trabalho, encarregava-se de a levar. Alice gostava muito de ir à escola mas, de vez em quando, havia uns choques de personalidade e aborrecia-se com o Z ou com o Y.

            Naquele dia tinha tido um dia cansativo e, também, algumas colisões de personalidade. Como estava sol, andou a correr o intervalo todo. O pai tinha de ir ao lago pescar e Alice aproveitou e foi também. O lago separava os dois lados da floresta. A menina encostou-se a uma árvore, tirou o “Quico” (o seu bloco de notas) e começou a escrevinhar. O sol estava mesmo no ponto, mesmo quentinho, e começou a dar-lhe uma moleza, uma indolência, que acabou por “cair redondinha”.

            Os pássaros, assim que a pressentiram a adormecer, começaram a cantar mais baixinho, embalando-a, e assim continuaram, não desligando a música definitivamente, em consideração àquele sono inocente.

            O sol mantinha-a quentinha, quentinha, e aquele soninho estava-lhe a saber muito bem. Sonhava, sonhava que era uma borboleta e, quando batia suavemente as asas, logo um pó se soltava no ar, dançando com o vento até pousar na pele das pessoas que, assim, podiam respirar felicidade.

            Pois é, Alice pairava sobre a cidade e via inquietação nos olhos dos seus habitantes. Andavam todos muito preocupados, amargurados, tristes, desgostosos. Até dava pena! Como é que tanta tristeza cabia dentro dos seus corações? Como é que eles suportavam tanta falta de ânimo? Aqui estava uma batalha a travar. E, ao deixar cair os pozinhos, era como se deixasse cair sorrisos. Sorrisos muito rasgados, de orelha a orelha, lindos como flores. Estes foram contagiando outros. Toda a gente já sorria, sorrisos simples, envergonhados, sorrisos abertos, alguns com batom vermelho, com brilho, cor-de-rosa ou caju. Sorrisos e mais sorrisos…

            Mas, num canto do jardim da cidade (provavelmente o único sitio verde no meio de tanta poluição) estava uma menina muito pequenina que chorava. Parecia que, no lugar dos olhos, tinha duas nuvens repletas de água a descarregar, como se de um dilúvio se tratasse.

            A missão de Alice era, simplesmente, fazê-la sorrir, arrancar um sorrisinho daquela carinha “laroca”. Contou-lhe todas as piadas do “Gato Fedorento”, todos os “cromos” do Nuno Markl. Tudo o que era graça contou. E nada!…

            Então, resolveu sentar-se ao pé dela e deu-lhe um beijo na testa. Logo um sorriso aberto apareceu. Do que a menina precisava, do que ela precisava mesmo, mesmo, era de miminhos. Precisava apenas de um beijinho, de um afago, de um carinho.

            De repente, uma voz familiar chamou-a do mundo dos sonhos:

            – Alice, acorda, acorda meu amor! Está na hora de ir para casa ajudar a mãe. Com aquele “barrigão” já não aguenta fazer tudo sozinha. Ainda temos o quarto do bebé para pintar. Depois, temos de o deixar a arejar, senão a criancinha intoxica…

            – Claro, pai. Olha, a Joana deu-me uns sapatinhos para o mano. São muito giros, mesmo fofinhos…

            À noite, na sua caminha, Alice agarrou-se à barriga da mãe e adormeceu.

            Sonhou que era tão feliz, mas tão feliz… Contudo, quando acordou, teve a certeza de que não era um sonho…Era realidade….Era tudo realidade…

Goddess of Happiness

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